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Olhar Conceito
Bella Campos divulga filme em Cuiabá e cobra mudança estrutural contra feminicídios: “homens estão tirando nossas vidas”
Cheguei ao restaurante do hotel, em Cuiabá, enquanto Bella Campos ainda comia. Era início da noite de terça-feira (23), poucas horas depois de ela desembarcar de São Paulo (SP), onde havia se reunido, na noite anterior, com outros nomes do elenco de Cinco Tipos de Medo, como Bárbara Colen, Xamã e João Vitor Silva.
Entre uma garfada e outra, a atriz se preparava para uma sequência de entrevistas. Era, sem dúvida, a mais aguardada pelos jornalistas que ocupavam o espaço. Pouco depois, ela se levantou, subiu ao quarto onde estava hospedada e retornou minutos depois, já pronta: vestia um conjunto preto, com blazer e calça.
Ao voltar, cumprimentou um a um, com naturalidade, e rapidamente transformou o ambiente em algo mais leve. Ao lado do diretor Bruno Bini, brincou que iria “dirigi-lo” durante as entrevistas. Entre risos, os dois combinavam como fariam o convite ao público cuiabano para assistir ao longa, gravado em Mato Grosso e premiado com quatro Kikitos.
Quando começamos a conversar, Bella mudou o tom. Passou a falar com atenção sobre Marlene, sua personagem no filme que estreia em 9 de abril. Enfermeira que atuou na linha de frente da pandemia, Marlene carrega marcas de um relacionamento marcado por violência psicológica.
“Minha preocupação enquanto eu construía a Marlene era fazer com que a mulher cuiabana, quando assistisse ao filme, conseguisse se identificar. Seja visualmente, seja na coragem, seja na doçura”, me disse.
Ela explicou que buscou equilibrar essas camadas na personagem. “É uma mulher que traz firmeza, mas também tem momentos de generosidade”, afirmou.
Ao tocar no tema da violência contra a mulher, o clima voltou a ficar mais sério. Bella fez questão de ampliar o debate para além da ficção, relacionando a história à realidade de Mato Grosso e do país.
“Eu fico sempre preocupada em como trazer uma mensagem de esperança e contribuir para uma mudança estrutural para proteger a vida dessas mulheres. A força está na mulher o tempo todo, mas só isso não basta”, disse.
Ela fez uma pausa breve antes de continuar. “A gente precisa da contribuição dos homens também, porque são os homens que estão tirando as nossas vidas. Esse assunto não pode ficar só numa roda de mulheres.”
Na avaliação da atriz, a personagem Marlene ajuda a evidenciar essa discussão. “Ela é uma amostra de que a força já existe dentro de nós, mas a gente precisa de uma estrutura externa para continuar vivas. No final, é disso que se trata: viver.”
Dirigido por Bruno Bini, Cinco Tipos de Medo entrelaça histórias marcadas por violência, relações afetivas e insegurança em diferentes contextos sociais. Antes da estreia comercial, o filme passou por festivais no Brasil e no exterior e chega aos cinemas no dia 9 de abril.